sexta-feira, 17 de março de 2017

Como quero me lembrar de você

Chega um certo dia da sua vida, que você percebe que os caminhos das pessoas nunca são os mesmos, e que muitas vezes, nem mesmo próximos ao seu. E não importa o quanto você tente aproximá-las cada um vai seguir sua própria estrada. Algumas continuaram sempre caminhando com você, mesmo com objetivos diferentes, e precisamos aprender a diferencia-las.

Durante toda minha caminhada, encontrei pessoas que me fizeram rir, amar, chorar, gritar, crescer, enxergar as coisas de modos diferentes. E agradeço a todas elas, por me ensinar tantas coisas, mesmo que muitas vezes eu não tenha dado o devido valor. E há modos singulares para cada uma delas, para eu continuar me lembrando das mesmas.
Para aqueles que eu deixei - ou que me deixaram -, um singelo agradecimento pelas horas desperdiçadas, e também pelas noites que eu passei em claro chorando achando que tinha feito a coisa errada, que a culpa era sempre minha. A culpa não era minha. Culpemos o grande relógio da vida, que bateu à meia noite, e mandou cada um de nós para seu devido lugar. Agradeço também as cicatrizes que deixaram em mim, é como se agora elas fossem a moldura de algo bem maior.
Para aquele que eu estou amando, inevitavelmente, irei me lembrar de seus olhares furtivos, das suas gargalhadas, e das suas piadas que não fazem ninguém, exceto a mim, rir. Lembrarei de como você fica irritado, e desconta em todos, mas se arrepende logo em seguida. Lembrarei do nosso primeiro abraço, e como eu não queria sair dele. Quero me lembrar de você assim, não importa se no futuro eu só te ver como um cara qualquer, um idiota que não amadurece nunca. Quero lembrar de você, como lembro agora.
Para minha melhor amiga - reparem que ela está no singular, pois sim, ela tem um lugar especial aqui -, que Deus me ajude que tenhamos só momentos de bem para lembrar e compartilhar. Ninguém melhor do que eu para dizer o quanto você sabe tirar qualquer um do sério, e eu estou falando sério. Quero me lembrar das nossas risadas sem motivo, das vezes que roubamos bebidas do teu pai - oops - , das milhares de vezes que quebrou a cara com algum garoto, e você sabia, sempre soube, que podia contar comigo, porque somos família, apesar de não termos o mesmo sangue. Quero lembrar da vez em que beijei um garoto pela primeira vez e você me chamou de atrevida, por não conhecê-lo, quero lembrar das vezes que meu pai nos levou para passear de carro, só para ficarmos contentes. Quero me lembrar de ti como uma das três, apesar de uma de nós ter desertado o trio.
Para minha prima - que deve estar entediada se estiver lendo esse texto -, não teria como esquece-la. Talvez eu devesse me lembrar apenas das nossas birras de criança, mas sabe, eu não lembro de nenhuma delas. O modo que consigo me lembrar de você, é como a garota que eu preciso fazer malabarismos para entender, a garota que desafia qualquer paradigma que nossa família e a sociedade impõe para ela. Vou sempre me lembrar de você como se fosse minha irmã mais nova, que acaba parecendo a mais velha, sempre colocando juízo na minha cabeça quando me falta. Quando estivermos velhinhas, e eu com meus filhos correndo atrás dos seus gatos e dos nossos pugs compartilhados, vamos lembrar juntas das vezes em que dançamos Just Dance até doer as pernas, as vezes em que brincamos inventando personagens de todas as dimensões possíveis, as vezes que brigamos e nunca precisamos pedir desculpas para voltarmos a nos falar. Quero me lembrar de você como minha irmãzinha que nasceu da irmã errada (não tindi o que cê falô).
Para minha mãe, que todos os dias aguenta os meus "manhê", "ô mãe", "vem aqui mãe", eu sei que é chato, mas obrigada por sempre atender meu chamado, e sempre dizer que eu sou a pessoa mais maravilhosa do mundo, mesmo eu sabendo que não sou. Queria poder ficar para sempre contigo, debaixo da tua asa, nunca sair do ninho, mas eu estou crescendo e você sabe disso. Se tudo der certo, ano que vem estarei estudando em outra cidade, e não terei você por perto o tempo inteiro, para me cuidar, me mimar, me entender, me lembrar das coisas que eu tenho que fazer - afinal, eu nunca lembro -. Toda vez que brincas que irás junto comigo, se eu me mudar, eu juro, morro de vontade de dizer: "por favor, venha!", mas mãe, a senhora sabe... Eu  preciso fazer minha vida sozinha, nem sempre poderei te ter por perto para caminhar por mim.
Para meu pai, que graças a suas chamadas de atenção, eu consegui crescer bem, e me tornar uma boa pessoa. Confesso, gostaria que implicasse um pouco menos comigo, mas eu entendo que é para meu bem, no final. Eu sei que está ficando velhinho - estou exagerando, ele só tem 56, mas ok -, e eu tenho tanto medo de perdê-lo, então sempre faço o máximo para gravar cada momento que passamos juntos, eu sei que logo vou estar longe, e não terei tempo para a família. Obrigada por não ter desistido de mim, quando eu tinha desistido de viver.
E para mim mesma, enfim, gostaria sempre de lembrar que já passei por coisas piores, então, Érica, continue seguindo em frente, nunca desista. 

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